Associação comunidade sócio-terapêutica Casa João Cidade

Casa João Cidade: a inovação sócio-terapêutica em território rural

A Casa João Cidade (CJC) é uma comunidade sócio-terapêutica dirigida a jovens e adultos portadores de deficiência mental e resulta da iniciativa de uma rede local de actores civis de Montemor-o-Novo (M-o-N), pequena cidade portuguesa de cerca de 9 000 habitantes situada no sul do país (Alentejo), região rural marginal no contexto europeu. A ideia do projecto baseou-se na vivência pessoal de alguns destes actores e na reflexão conjunta sobre a experiência recolhida junto de outras instituições locais vocacionadas para o apoio à infância e à deficiência. A Casa João Cidade que adopta o nome de um dos mais ilustres filhos da localidade, inovador no apoio à deficiência (S. João de Deus), valoriza a criatividade artística como forma de expressão: por um lado a expressão do indivíduo e o reconhecimento da sua identidade, por outro a sua relação com aqueles que o rodeiam, facultando o desenvolvimento da sua vida social.

1. Perspectiva territorial: o contexto de Montemor e o papel dos actores civis

Em M-o-N, a actividade cívica é potenciada pela pequena dimensão da comunidade e pela presença de actores particularmente qualificados, que o contexto político e social desta comunidade e a proximidade a Lisboa (110Km) em parte justificam. Aqui, juntam-se velhas e novas elites (pré e pós revolução de 1974) que trabalham em conjunto para realizações de dimensão social transversal, como é o caso do apoio à deficiência. Como resultado desta dinâmica desenvolvem-se redes de proximidade entre indivíduos e instituições e tecem-se laços com outros lugares e entidades, na busca dos caminhos e das soluções para questões sociais onde os problemas dos idosos, das crianças e das pessoas portadoras de deficiência têm particular relevo. O amadurecimento de percursos profissionais e pessoais ao serviço de terceiros tem aqui uma tradição e uma dimensão ética notáveis. Não menos importante: traduzem oportunidades na realização pessoal dos diversos actores.

2. Perspectiva sectorial: a criatividade convergente

“Criadora de um tempo de génese, que é o verdadeiro tempo, a deficiência mental é o estímulo repetido e presente da imaginação, a faculdade que diviniza os seres humanos, por ser a faculdade criativa do espírito… (J. Rêgo)"

O projecto da CJC, criado em 2002, concretiza-se nas duas valências: residência e oficinas. Espaço para viver e estar, numa comunidade sócio-terapêutica no meio da natureza cujo principal objectivo é promover a inserção de jovens e adultos com deficiência mental. A originalidade do conceito da CJC está na associação das potencialidades de comunicação que a arte proporciona com a proximidade da natureza: espaço físico escolhido para o desenvolvimento das actividades. Como refere Maria do Resgate Almadanim, uma das impulsionadoras do projecto, o contacto com a natureza, a liberdade da vida no exterior surge como alternativa ao isolamento dos espaços fechados, tão comuns à abordagem da deficiência mental, que já por si é uma condição tão limitadora.

Para além da utilização da linguagem artística e da vivência da natureza, os fundadores da CJC reconheceram uma terceira coluna na construção desta comunidade: a entreajuda e a partilha de todas as tarefas e responsabilidades, na medida das capacidades de cada um.

3. O modelo plural da Casa João Cidade: o estar e o criar, fruto de um processo de aprendizagem

Estar/residência: a Casa Elvira, dirigida a deficientes com diferentes graus de capacidade, vivendo numa casa própria. Os utentes são acompanhados por técnicos, nas 24 horas de cada dia, na execução de todas as tarefas da casa e na sua organização e animação cultural.

As tarefas diárias, elas próprias com efeitos terapêuticos, são executadas na medida das possibilidades de cada residente e integram-se num esquema mais largo de actividade em oficinas artísticas.

Criar/oficinas: as Oficinas da Cidade, oferecem diferentes salas onde os utilizadores, provenientes da residência e não só, podem desenvolver actividades com animadores de diferentes áreas artísticas.

Atendendo aos desejos e competências de cada indivíduo, as oficinas estão inicialmente organizadas nas seguintes áreas temáticas: Área do Fogo (Cerâmica, Moldagem, Escultura, Fundição Joalharia e Vidro); Área das Fibras (Pintura, Fiação, Tintagem, Tecelagem, Tapeçaria, Confecção de Roupa); Área Alimentar (Cozinha, Padaria, Pastelaria, Doçaria, Conservas); Área Verde (Jardinagem, Horticultura, Capoeira, Agricultura Biológica). São também previsíveis projectos na área do teatro, da música ou da expressão corporal. É fundamental que algumas destas actividades, como as relativas à área alimentar ou à rouparia e engomadoria, ainda não citadas, se revelem motoras de rendimento para a sustentação global da iniciativa.


Fig.1 – Oficinas da Cidade


Fig. 2 – Ateliers realizados em 2007

4. Sustentabilidade e fragilidades

A capacidade evidenciada pelos diferentes actores civis em mobilizar recursos endógenos e exógenos é, no contexto de M-o-N, uma garantia de sucesso para este novo projecto. O adensar das redes entre as instituições locais promoveu um proveitoso processo de aprendizagem e tomada de consciência das diferentes dimensões da deficiência mental. A solidariedade colectiva local sustenta, indirectamente, uma consciência territorial fundamental para o desenvolvimento de parcerias e sustentabilidade da iniciativa.

O modelo, apesar de original, é frágil e necessita de provar a sua sustentabilidade financeira. Se esta é evidente, ao nível de parcerias financeiras com a Segurança Social, para as valências referentes às necessidades básicas dos utentes (residência), o mesmo já não se passa com as necessidades imateriais (criativas) dos cidadãos portadores de deficiência.

Fonte texto e fotografias:
Associação Casa João Cidade

Instituição Particular de Solidariedade Social
Rua Verde, 5
7050-274 Montemor-o-Novo
Telefones: 266 087 082
Fax: 266 087 082

Mais informações em :http://www.joaocidade.com

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